terça-feira, 4 de novembro de 2008

De arma em punho

Certa ocasião, eu disse aqui, neste cantinho, que minha primeira profissão foi a de ”seleiro”, o que confirmo. Fabricava selas para montaria e outros artefatos de couro.

Fui, ainda, jogador de futebol, sempre no time principal: nunca joguei no cascudo, acho até que eu era bom de bola. (Aqui entre nós: a bola era minha! Outra coisa: fui um dos fundadores do time do Minas Esporte Clube, de Nova Era!).

Minha carreira rumo à seleção do Brasil foi interrompida por uma contusão não muito grave. Tive de me afastar do gramado como jogador, mas a saudade me fez voltar ao campo, dessa vez como juiz de futebol. Modéstia à parte, eu apitava muito bem!

Sempre havia uma partida para apitar, aqui em Nova Era ou em alguma cidade vizinha, como João Monlevade, São Domingos do Prata, Itabira, etc.

Certo domingo, solicitaram-me que apitasse o maior clássico de nossa cidade, entre os dois rivais: Comercial F.C. x Minas E. C., no campo do Comercial. A cidade se dividia entre os alvinegros comercialinos e os vermelhos, do Minas. Era, realmente, um clássico que mobilizava toda a população. O jogo seria no campo do Comercial. Consideravam-me, mesmo, um ótimo árbitro, pois todos sabiam que eu jogara no Minas, tendo sido um de seus fundadores. Entretanto, confiaram na minha imparcialidade.

Já estávamos no segundo tempo. Tudo ia bem, apesar do calor da disputa. “Meu time”, ou melhor, o time do Minas, perdia de 3 a 2, quando, aos 35 minutos, tive de assinalar uma penalidade máxima contra o Comercial. É claro que os jogadores do time da casa correram em minha direção, protestando contra a marcação, gesticulando e segurando a bola. E eu, ali, no meio, firme...

Foi quando o goleiro Dedé, do Comercial, colocou-se de braços abertos à frente de seus colegas, gritando:

- Foi pênalti, sim! Eu entrei no Zé Neves para quebrar mesmo! Deixem cobrar que eu garanto: vou fazer a maior defesa!

Diante da confissão do próprio colega, não houve mais protestos.

O pênalti é batido, o jogo empatado. Mais uns 10 minutos e a partida é encerrada sem outros incidentes.

Naquela época, já era noivo da Aparecida, cuja residência ficava muito próxima do estádio Israel Pinheiro, do Comercial.

À noite daquele mesmo domingo, no trajeto para sua casa, escutei vozes vindo de um canto escuro – estávamos em 1947, a luz elétrica era de péssima qualidade – até que vislumbrei uns quatro rapazes que começaram a cantar:

- “Rato, rato, rato,

por que motivo tu roeste meu baú?

Rato, rato, rato...”

Senti que era um insulto e uma provocação. Mas segui caminho.

Pois a cena se repetiu nas noites seguintes: era eu passar e a cantoria principiava:

- “Rato, rato, rato,

por que motivo tu roeste meu baú?

Rato, rato, rato...”

Voltemos à selaria, onde exercia meu ofício:

Além de arreios para montaria em animais, eu fabricava outros artigos de couro, para pronta entrega e encomendas.

Fabricava coldres (capa) para canivetes, facas, revólveres, inclusive rifles, de alguns caçadores.

Pois bem: certo dia, o meu amigo e freguês, Sebastião José Pinheiro, levou-me um revólver muito bonito, de cabo de marfim com pontinhos dourados do tamanho de uma cabeça de alfinete, para fazer uma capa, ou coldre. Antes de me entregá-lo, como medida de segurança, o Sebastião retirou as balas do tambor e as colocou em seu bolso, sem conferir. Após escolher a cor do couro, resolveu demonstrar como funcionava bem o gatilho e o cão de sua arma, tudo muito bem sincronizado - nós dois, um de frente para o outro. O Sebastião pressiona o gatilho apontando a arma em minha direção. O tambor começa a girar, o cão vai subindo, subindo... de repente, o amigo murmurou:

- Meu Deus! quase o matei, Soié. Tem uma bala no tambor!

Depositou cuidadosamente o revolver sobre a mesa, e desmontou, como que desmaiado, na cadeira que lhe ofereci.

Uma colher de água em sua boca e uma vigorosa massagem em seu pulso o reanimaram quase imediatamente.

Escolheu o couro, acertamos o preço e lhe confirmei que poderia procurar a encomenda logo mais, no fim do dia.

Lá pelas 17 horas, fui ao armarinho do David M. Guerra, grande admirador e colecionador de armas de fogo, a fim de lhe mostrar o lindo revólver. Ao entrar em seu estabelecimento, percebi, junto ao balcão, um dos “seresteiros” das últimas noites. Com calma, desfiz o embrulho, exibindo ao David a obra prima. O rapaz, lá, espiando com o rabo dos olhos. Depois de bem examinada, o David perguntou:

- Esta arma é sua? Você quer vender, Soié?

Em voz alta, respondi:

- É minha, sim, mas não está à venda.

E acrescentei:

- A partir de hoje, estarei sempre com ela na cintura, pois tem gente que está me insultando quando vou à casa da Aparecida. Qualquer hora dessas, vou disparar tiros em direção aos safados, escondidos que ficam no meio da escuridão! Até amanhã, David.

Virei-me para o moço que espiava junto ao balcão e repeti:

- Até amanhã, meu caro.

Nessa mesma tarde, entreguei o revólver e seu coldre ao Sebastião.

Continuei a visitar minha noiva, como fazia todas as noites. Já não era molestado por ninguém, muito menos pelos jovens “seresteiros”. Até hoje!


Agora, se querem saber: Nunca, jamais, em tempo algum, andei armado!...

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

CARMA, MOÇO!

Domingo à tarde, lá ia Seu Ponciano, fazendeiro das bandas de Valadares, dono de um dos maiores e melhores alambiques da região.
Lá ia ele com seu caminhãozinho 1951, bem estragado, quase sem freio, levando sua cachaça para as vendas do arraial.
Saiu da estradinha de sua fazenda, entrou na BR-116 sem poder parar, justamente quando passava uma BMW-2007.
Seu Ponciano bate de cheio na traseira daquela maravilha.
O paulista, doutor Evandro, dono da BMW, sai que é uma fera pra cima do Seu Ponciano.
- Carma moço, muita carma, fica brabo à toa, não, Sô! Já, já vamo arresorvê tudim, tudim...
- Resolve nada seu *&¨%$#!)(*+#$%, esta coisa aí não paga nem os pneus da minha máquina!!!
- Carma... já dissi qui a gente resorve tudim, tudim! Sô dono de alambique ali nos arredores de Valadares, Sô! Aqui, Sô Dotô, toma uma aqui da minha fazenda... é da boa... toma qui o sinhô vai si acarmá...
O Dr. Evandro acaba aceitando e toma uma.
Gosta.
- Acarmô?
- Acalmei nada!!!
- Intão bebe ôtra qui vai carmá... Teim aqui tomém um tira-gosto qui a patroa aperparô, uma paçoca de carne socada no pilão.
E assim foi.
Depois de uma meia dúzia de doses, o Ponciano torna a perguntar:
- Agora, Dotô, já carmô?
- Sim, agora sim! Vamos resolver esta questão!
- Isso! Dotô! Intão agora nóis vamu sentá aqui i chamá a puliça pra fazê o tar di bafômetro i vê quem tá errado!

sábado, 9 de agosto de 2008

A ponte de Nova Era

Estou voltando ao ano de 1938, precisamente ao dia 17 de dezembro, na turbulência do “Estado Novo”, quando minha terra, São José da Lagoa, foi elevada à categoria de cidade. Recebeu, então, o nome de Presidente Vargas. Compunha-se de um só Distrito, o da sede, o qual foi instalado em 1º de janeiro de 1939, quando entrou em exercício seu primeiro prefeito, Nelson de Lima Bruzzi, nomeado em 31/12/38.

- Porque Presidente Vargas?
Na época, o gaúcho Getúlio Dorneles Vargas era o Presidente do Brasil e, para homenageá-lo, o novo município recebeu seu nome.
Mais tarde, com a criação do pólo industrial do Vale do Aço, composto pelas cidades de Ipatinga (Usiminas), Itabira (Cia. Vale do Rio Doce), João Monlevade (Cia. Siderúrgica Belgo Mineira) e Timóteo (Acesita), nossa pequena cidade prosperou muito, pois está geograficamente situada entre os quatro polos acima, na Zona Metalúrgica, dentro do que se denomina quadrilátero ferrífero, de futuro promissor. Cresceu e evoluiu bastante, a ponto de se tornar uma das mais prósperas do vale do Rio Piracicaba e, em pouco tempo, foi elevada a categoria de Comarca.

O então governador de Minas. Dr. Benedito Valadares, ainda para homenagear Getulio Vargas, novamente por decreto, com data de 13 de junho de 1942, transferiu o nome de Presidente Vargas para Itabira, que passou a ter o nome Presidente Vargas.
Assim, a antiga São José da Lagoa, depois Presidente Vargas, passou a ser a Nova Era de hoje.
No entanto, a população de Itabira protestou, pois a tradição de um nome centenário fora quebrada e, em movimentos populares e políticos, em pouco tempo, recuperou o nome Itabira.

O nome Nova Era foi bem recebido pelos habitantes daqui, enquanto o município a cada dia mais e mais se destacava no cenário social e político da região.
A rodovia BR-381 trouxe-nos uma ”nova era” de progresso, através do escoamento e recebimento de produtos básicos.

A PONTE DOS ARCOS


A ponte dos arcos, construída no governo de Benedito Valadares, é cartão postal de Nova Era. É muito bonita em seus quase 100 metros de extensão. Já foi pintada de branco para contrastar com a vegetação abundante, o casario e as águas do Rio Piracicaba, barrentas na época de chuvas. Atualmente, está mais colorida, como se observa na foto.
Para sua inauguração foram convidadas pelo prefeito Nelson de Lima Bruzzi as seguintes autoridades:

O Presidente da República, Getulio Dorneles Vargas e seus ministros, além do Governador do Estado, Benedito Valadares e seus secretários. Diversas cidades de Minas e de outros estados enviaram delegações representativas. Foram dois dias de solenidades, com a presença das autoridades citadas. Importante: Eu participei ativamente dos festejos, pois era músico da banda Euterpe Lagoana, na qual tocava clarineta!


Somente um pequeno trecho da rua principal tinha calçamento e, como todos os convidados viriam de carro, o nosso prefeito determinou que todas as ruas por onde as autoridades deveriam passar fossem cobertas com uma camada bem espessa de areia, para que os carros não balançassem. Milhares de metros cúbicos de areia foram espalhados e os carros rodavam suavemente.
Em várias oportunidades, Nova Era recebeu a visita oficial de outros governantes como Juscelino Kubitschek, Bias Fortes, Milton Campos, Francelino Pereira, Eurico Gaspar Dutra e outros

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Entrevista com Soié

Reproduzo minhas respostas às perguntas formuladas por Rowan Pedro Araújo do site Nova Era On Line:




Rowan: O senhor tem dado exemplos interessantes. Falo principalmente da dedicação ao trabalho e uma liderança familiar em harmonia com a esposa que traduz muita força e essencia nestes exemplos que colocamos e chega sos 80 anos participando da moderna linguagem eletronica / Internet entre um mix de gerações. Nós da Escola de MBA da cadeira de Recursos humanos, achamos isto fantástico. Como pode resumir isto para nós?


Soié: Sempre amei o trabalho. Frequentava o grupo escolar e nos momentos de folga ajudava o meu pai na "venda" (mercadinho) e selaria que ele possuia, localizada á rua Gov. Valadares.
Após concluir o grupo escolar fiz o ginasial no colégio Silvestre Moreira.
Meu pai sempre confiou em mim, por isso eu tinha alguma influência em decisões. Fui comerciante por mais de 30 anos no ramo de selaria e material de construção.
O Soié Bar até hoje é lembrado por todos que o frequentaram,
inclusive V. S., senhor Rowan.
Casei-me aos 24 anos e quatro meses de idade. Minha esposa, Aparecida, tinha 18 anos e oito meses. Temos nove filhos, todos com curso superior completo em seus currículos.
Nós dois sempre através de um constante diálogo, alcançávamos sem traumas o divisor comum.
Data de meu nascimento:
28/10/23, posso dizer que tenho 85 anos de idade.

Rowan: No correio, quando profissional, o telégrafo fazia parte da vida do senhor. Hoje o mundo da Internet, os e-mail´s, Blogs, Orkut etc. Como são estas diferenças? O senhor se sente uma pessoa do ambiente da cultura da comunicação? O trabalho nos Correios trouxe influência?



Soié: Não se pode nem comparar os Telégrafos de meu tempo na ECT, com Internet. Telegrama era um meio de comunicação a distancia muito eficiente, entretanto ficou superado com a INTERNET. Hoje a ECT envia e recebe telegrama via Internet, é instantâneo. Aprecio os e.mail's, Orkut, msn, blogs.
Fui funcionário dos Correios onde me ingressei em Março de 1954. Entre outras tarefas, fui telegrafista, quando se usava o código morse, meu nome se escrevia assim:
.. ... _ _ . _ . . _ ..

ou seja: dois pontos letra I, três pontos letra S, dois traços letra M, um ponto uma linha letra A, um ponto letra E, e um ponto um traço e dois pontos letra L . ISMAEL
Sim, admito que o correio ajudou muito.
Quando me aposentei em 1979, eu exercia a função de Gerente, ou seja chefe da Agência de Nova Era, minha terra natal.


Rowan: Entre todas cidades, principalmente da cidade de Nova Era, o senhor aparece como uma referencia de forte identidade familiar, carisma e história de morador cidadão que atarvessa gerações como empregado no correio, comerciante no Soié Bar, e depois como escritor e presença forte em nossos meios tanto físico, quanto virtual. Qual o sentimento de tudo isto?

Soié: O sentimento é de alegria, admito ter cumprido todos os deveres de cidadão. Considero-me um ótimo filho, não desapontei os meus pais em nada e tenho certeza, meus filhos não queixarão nada de mim.
Na parte social, cheguei a ser membro da diretoria do Automóvel Clube.
Encabecei uma lista para fundação do Minas Futebol Clube, cujo nome fora sugerido por mim, hoje Minas Esporte Clube.
Trabalhei como Contador, Distribuidor e Partidor Judicial no foro da Comarca de Nova Era, durante muitos anos.
Eu e minha esposa colaboramos também na formação do Curso Para Noivos, onde éramos coordenadores, e com muito entusiasmo fazíamos a palestra: Diálogo e Harmonia Conjugal.
Alguém disse que todo homem para ser homem deve plantar uma árvore, fazer um filho e escrever um livro. Não sou escritor, mas plantei algumas árvores, sou pai de oito homens e uma moça e escrevi um livro.

Rowan: O que falta ao Brasil para termos uma nação forte, comprometida com a ética, educação das pessoas, meio ambiente e valores humanos, preparada para desafios e senso de justiça social?

Soié: Falta apenas patriotismo dos homens que comandam o nosso querido Brasil. Todos eles, com raras exceções, são ambiciosos financeiramente, e muitos chegam a ser desonestos. Veja como a Policia Federal tem descoberto quadrilhas de corruptos e ladrões, muitos deles de colarinho branco.

Rowan: Qual conselho o senhor daria para nós que estamos nos relacionando no dia a dia neste mix de idade, expeiencias e visão do mundo e mudanças que nos chegam?

Soié: Acho que não tenho competência para dar conselhos, mas espero que pessoas de maior conhecimento, consigam um Brasil mais humano e mais justo, para que nossos filhos, netos, bisnetos e todos que residem nesse glorioso Brasil, consigam alcançar seus melhores objetivos.
Obrigado, Rowan, pela oportunidade que me proporcionou.

sábado, 28 de junho de 2008

Pega o ladrão!

"Quem conta um conto, aumenta um ponto", dizem. Então, ao contador de casos, ou "causos", tudo é permitido. Portanto, acredite quem quiser:


Nos idos de 1940, quando eu tinha entre 15 e 18 anos, aconteceu comigo um fato interessante, foi o seguinte:
Meu pai, Sô Ilidinho, transferiu a selaria dele para o meu nome. (Selaria=fábrica de arreios de montaria).
Como proprietário, a responsabilidade aumentou bastante: o atendimento aos vendedores de produtos básicos, atendimento aos fregueses, pagamentos, etc., tudo isso era comigo.
Observem: Tão novo e já era empresário.


Os atacadistas de Belo Horizonte, São Paulo, Curvelo e Rio Grande do Sul continuaram a fornecer mercadorias para a minha empresa, com o aval de papai.
Quando faltava algum material, havia necessidade de minha ida a BH. Eu estava sempre bem trajado, de gravata, paletó e chapéu. Viajava pela Maria Fumaça da Central do Brasil, chegando à capital mineira somente à noite.


Certa vez, para aproveitar oportunidades, viajei em um sábado, pois no domingo pretendia assistir a uma partida de futebol entre o Clube Atlético Mineiro e o Palestra Itália, hoje Cruzeiro Esporte Clube.
No domingo, não me lembro se no campo do Atlético ou no Barro Preto, campo do Cruzeiro, eu estava presente entre os torcedores, fazendo força para a vitória do meu clube favorito, o glorioso Cruzeiro.
No decorrer da partida, notei que Kafunga Murilo e Ramos, do Atlético, estavam impecáveis, salvando o seu time de um resultado negativo. Já no Cruzeiro, os destaques ficavam por conta de Geraldo II, Caieira e Bibi, um trio inesquecível.
O futebol apresentado pelas duas equipes foi equilibrado, muito vibrante, emocionante desde o início até o final, muito bem dirigido pelo competente árbitro Mario Viana, de saudosa memória.
O resultado não poderia ser outro: deu empate.

Estou desviando de assunto, volto ao principal.
No dia seguinte, segunda-feira, fui às compras nas casas especializadas no ramo de couro e outros apetrechos para selaria. Nessa mesma tarde fui à estação ferroviária comprar passagem para, no dia seguinte, viajar de volta para São José da Lagoa, hoje Nova Era.


Com a passagem no bolso, passei pela pensão Sete de Setembro, no bairro Floresta, onde paguei as despesas, pois viajaria no dia seguinte, bem cedo. Entrei no meu quarto, preparei a bagagem e, logo após, saí a caminhar aleatoriamente pela cidade.
Depois do viaduto da Floresta, chegando à Rua da Bahia, à esquerda de quem sobe, havia um Verdurão, com uma banca com bananas no passeio. Aproximei-me para comprar algumas pencas com intuito de levar para casa. Antes de pegar as bananas, não resisti à vontade de comer e retirei uma, quando então ouvi gritos assim:

- Olha o ladrão! Pega o ladrão!


Duas pessoas correram em minha direção. Pensei que algum ladrão queria me roubar, deixei a banana cair e corri para o outro lado da rua, entrando no Parque Municipal (na época, não havia o gradil). De dentro do parque, olhei para trás, mas o trânsito impediu que o ladrão me alcançasse.


Novamente ouvi a mesma voz gritando:
- Cerquem do outro lado que eu vou por aqui!
Pensei comigo:
- Estou roubado! O ladrão vai me deixar nu!
Sem outra saída, subi em uma árvore, escondendo-me entre seus galhos.
Lá de cima pude ver e ouvir os dois supostos ladrões passarem bem próximo:
- É, ele sumiu.


Fiquei na árvore até escurecer, quando começou a chover. Molhei-me todo, abraçado ao tronco para não cair.


Acreditem que a noite chegou e a danada da chuva não parava.
Empoleirado lá em cima, contando as horas pelo som do relógio da Igreja São José, ali fiquei até a madrugada, já sem chuva.


Desci do meu “poleiro”.

Estava ensopado e sujo daquele lodo que escorria pelo tronco da árvore. Caminhei até à Av. Afonso Pena, nas proximidades da Igreja São José, onde pegaria um táxi para pensão 7 de Setembro. Mas... todo o meu dinheiro havia sumido!!!


Conforme relatei no princípio, os rapazes naquela época usavam paletó e chapéu. Voltou a chover abundantemente. A Av. Afonso
Pena era toda arborizada, cheia de ficus enormes. Procurei um cantinho debaixo de uma marquise. Pensava:
- Será que aqueles dois não eram ladrões e, sim, funcionários do comerciante de frutas? Será que eles julgaram que eu queria furtar bananas? Será que eles achavam que eu queria tirar frutas e não pagar?


Cansei de ficar em pé. Sentei-me no chão e, em poucos minutos, estava dormindo. Minha cabeça pendeu para um lado, o chapéu caiu entre minhas pernas, com o tampo virado para cima.


Ao acordar, que surpresa!

O chapéu estava cheio de dinheiro, notas e moedinhas. Olhei para os lados, tudo tranqüilo, guardei a dinheirama nos bolsos e tomei um táxi até a pensão. Tomei rapidamente um banho, troquei de roupas e, ao motorista que me aguardava, ordenei:
- Toca rápido para a Estação Ferroviária!


A locomotiva já resfolegava na plataforma. Embarquei imediatamente para São José da Lagoa, onde cheguei são e salvo.
Melhor: encontrei no fundo do bolso o dinheiro que julgava ter perdido. Depois de tanta aventura, saí no lucro!

sábado, 21 de junho de 2008

Emoções

As cerimônias das nossas Bodas de Diamante transcorriam normalmente, desde a nossa entrada na Matriz de São José: como noivos, Aparecida e eu percorremos o corredor central da igreja, seguidos por nossos filhos com as respectivas esposas, netos e netas. Nossa filha, Sheilinha, também formava o séquito, enquanto todos os presentes nos olhavam sorridentes. Estava emocionado, é claro, mas não poderia supor o que viria. O vigário se referia o tempo todo à importância do evento, citando-nos como exemplo para a comunidade presente. Havia um coral de meninos e meninas que cantavam hinos em ritmos populares, com percussão e tudo, de tal forma que o clima era festivo, alegre e - por que não dizer? - quase dançante.

Surpreendente foi a decisão do Pe. Eugênio em repetir ali, na frente de todos, a cerimônia tradicional do casamento. Chamou-nos ao altar, convocou filhos, netos e parentes para ficarem ao nosso lado e me colocou frente a frente com minha noiva, quer dizer, minha esposa, Aparecida. Principiou:
- Ismael, o senhor aceita a Aparecida, aqui presente, em matrimônio?
- Sim, respondi com voz firme.
- Aparecida, a senhora aceita o Ismael, aqui presente, em matrimônio?
- Sim, falou Aparecida.

Invadiu-me uma avalanche de lembranças.
Voltei ao tempo de rapaz e me vi na calçada da principal rua de Nova Era, apreciando as mocinhas que faziam o footing nas noites de sábado e domingo. A rapaziada ficava na calçada, enquanto as moças andavam de um extremo a outro do quarteirão. Colocavam os melhores vestidos, penteavam-se e se perfumavam. Às vezes, faziam uma espécie de cordão, com cinco ou seis delas de braços dados, ocupando quase toda a largura da rua, rindo, gargalhando.
Os marmanjos jogávamos olhares e piscadelas, ora correspondidos, ora ignorados. Elas, por sua vez, lançavam olhares e sorrisos, às vezes tão explícitos que poderiam se confundir com sem-vergonhice. A maioria se portava discretamente e muitas dissimulavam o interesse, com medo de serem mal vistas ou mal faladas.
Numa dessas noites, imaginava que tudo seria igual ao de sempre: um flerte aqui, uma risada ali, alguma brincadeira ou inocente piadinha sussurrada aos ouvidos da moça mais próxima.
De repente, meu coração deu um salto, disparou que nem os cavalos lá no Morro dos Coqueiros: o olhar de certa morena de olhos verdes fulminou-me! Seu sorriso derreteu os músculos de minhas pernas, que tremeram como se de gelatina fossem. Descobri, ali, minha eterna namorada: Aparecida!

Outras imagens desfilaram em minha mente, enquanto o padre recitava mais e mais perguntas acerca das promessas do matrimônio. Como pode uma vida inteira caber em um segundo de memória?

Ouvi dizer que não existem palavras para expressar uma grande emoção. Eu mesmo já perdera a voz, seja por rouquidão, seja por susto diante de um acontecimento espantoso ou trágico.

Ali, diante da minha eterna namorada, Aparecida, perdi a voz. Sim, senhor, perdi completamente a voz, não sabia o que dizer e parecia que o ar jamais sairia dos meus pulmões. Não, ela não me sufocava, nem susto eu sentia. Foi, realmente, por pura e enorme emoção.


A voz sumiu, o peito apertou e a garganta paralisou quando teria de repetir, palavra por palavra, o juramento final, ditado pausadamente pelo vigário:
- Maria Aparecida, eu te recebo como minha legítima esposa, e prometo ser fiel, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, amando-te e respeitando-te todos os dias de minha vida.

Novamente as lembranças se desfiaram uma a uma, numa velocidade incrível, porém nítidas, claras, estonteantes. Sessenta anos de vida em comum nos proporcionaram alegrias desmedidas mas, também, sofrimentos e angústias enormes: o nascimento de cada um dos filhos, as conquistas materiais, os apertos financeiros, as doenças... ah! as doenças.

São os momentos de dor que mais fortemente revelam o tamanho do amor que une os casais. Estar juntos na alegria, nas festas, nas viagens e na bonança é muito fácil. Entretanto, nosso casamento se fortaleceu exatamente na construção diária de esperanças em dias melhores; no apoio mútuo: eu ao lado da Aparecida, ela do meu lado, nós ao lado dos filhos. Como uma barra de ferro que é temperada na forja e na bigorna, nossa união se firmou nos entreveros que a vida nos proporcionou. Eis-nos, agora, alegres, sorridentes, felizes a abraçar todos e cada um. A vida nos temperou!

A celebração chegava ao fim.
Por um capricho devocional, Aparecida quis que se repetisse, ali, naquele momento, uma tradição dos tempos em que nossos filhos eram crianças. Uma almofada de veludo vermelho em forma de coração representava o sagrado coração de Jesus e Aparecida pediu que cada um dos filhos e netos trocassem os espinhos (alfinetes) por flores (recortes de papel). O coral entoou uma antiga música sacra, denominada "Coração Santo". O povo soltou a voz e uma salva de palmas encerrou a devoção.

Da igreja fomos ao clube, onde nos esperava um grande almoço, para mais de 300 convidados. Tudo muito bem organizado, as mesas repletas de amigos, parentes, conhecidos. Havia fotos que contavam a história de nossa família, álbuns que as pessoas folheavam e reconheciam parentes, locais, situações de décadas atrás. Não conseguirei descrever com detalhes, mas quem conosco esteve jamais esquecerá.
Que venham outros sessenta anos!

domingo, 8 de junho de 2008

CASAMENTO HEXA-CAMPEÃO

Eu e minha eterna namorada Aparecida, contraímos matrimônio em 05/06/1948, na igreja matriz de São José, localizada lá no topo da ladeira, a meio caminho da gruta de São José e suas águas milagrosas.

Aparecida e eu - 05.junho.1948 Posted by Hello


A cerimônia religiosa foi celebrada pelo meu amigo, o padre Antônio Mendes Barros, que sempre me cumprimentou assim:
- Oh! Árbitro da elegância masculina!!!
E eu respondia no mesmo tom:
- Oh! Sua Santidade o Papa!!!
A igreja, literalmente cheia, estava ornamentada com flores, candelabros com suas velas acesas, tapetes vermelhos e outros detalhes; os bancos, repletos de convidados que conversavam a meia voz uns com os outros.
Quando eu e minha mãe, Eutargina – que se apresentava como Nhanhá - desfilamos em direção ao altar, não se ouviu o menor ruído, todos em silêncio com os olhos voltados para nós, estampando, nos semblantes risonhos, entusiasmos e alegrias. Eu olhava para a direita e esquerda sorrindo ... sorrindo sempre. Em cortejo, as testemunhas também desfilaram em direção ao altar.
Bem à frente, em bancos reservados para os familiares, meu pai Ilídio Clementino – conhecido como Sêo Ilidinho - se encontrava junto aos meus irmãos: Diló e sua esposa Olga, com o filho Wagner; Cici - de saudosa memória; Irany, Inésia, Ismar e Irineu. Até a minha avó Leopoldina, que chamávamos de Mamãe Didina, compareceu. Lá estava a avó da Aparecida, dona Maria Moreira, conhecida parteira da cidade, que ajudou o meu filho Cláudio a nascer. É lógico que não faltaram a mãe de Aparecida, dona Raimunda (Mundica) e suas três filhas, Terezinha , Vilma e Zizina, além do meu amigo José Viana e minha prima Zoraida, como testemunhas.
Minha noiva, na porta da igreja, aguardava o término do cortejo.
O coral, dirigido pela freira Irmã Celeste, entoou a Ave Maria de Gounod, num emocionante fundo musical para a entrada de Aparecida, de braços com o saudoso pai, José Bonifácio Domingues, vestido num terno impecável, sempre muito elegante, vaidoso que era.
Lentamente, eu e minha mãe nos encaminhamos em direção a Aparecida que se aproximava. Cumprimentei meu sogro, Bonifácio, despedi-me de minha mãe Nhanhá e respeitosamente depositei um ósculo na face de minha quase esposa. Juntinhos nos dirigimos ao altar-mor, onde nos aguardava o Padre Antônio.
A cerimônia transcorreu de acordo com o ritual. Um momento inesquecível foi a Bênçãos das Alianças:


1ª Bênção
Os dois pajens, Maria Costa minha irmã e afilhada mais o Haroldo, irmão de Aparecida, vagarosamente caminharam em nossa direção conduzindo as alianças que repousavam sobre delicadas almofadas.
O sacerdote abençoa as duas alianças. Pega a menorzinha, coloca-a em minhas mãos e manda que eu a beije e a coloque no dedo anular da mão esquerda de Aparecida, recitando:
- Maria Aparecida, eu te recebo como minha legítima esposa, e prometo ser fiel, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, amando-te e respeitando-te todos os dias de minha vida.
Em seguida, tomou a outra aliança, entregou-a a Aparecida, que
a beijou e colocou no meu dedo, com idênticas promessas, respeitadas até hoje, durante esses últimos 57 anos.

2ª Bênção - Bi
Dez anos são transcorridos. Estamos em 1958.
Numa tarde, nós dois estávamos de volta lá da gruta de São José, quando resolvemos entrar na igreja matriz para orações.
Por acaso, realizava-se um casamento. Percebemos que se tratavam de pessoas humildes, pobres. Aguardamos à porta para não incomodar. Eram dois idosos que se casavam, testemunhados apenas por uma senhora mais idosa e o padre. A igreja estava quase deserta.
Em dado momento, o celebrante nos chamou e pediu emprestadas as nossas alianças, para que a cerimônia ficasse completa. E nossas alianças foram abençoadas pela 2ª vez...

3ª Bênção – Tri – As Bodas de Prata
Quinze anos depois, em 1973, as mesmas alianças recebem a bênção pela terceira vez, quando comemoramos nossas Bodas de Prata. Houve uma Missa Festiva, com a presença de muitos amigos, parentes e de todos os nossos 9 filhos, a saber: Cláudio, Clóvis, Cléver, Ismael José, Sheila, Jaques, Ilídio, Nélio e Bonifácio. Agora, as alianças já são tri-campeãs!!!

4a. bênção - 1983 - Tetra
Desta vez, éramos testemunhas de um casamento muito chique. Igreja lotada, com direito a Marcha Nupcial e outras pompas.
Tudo normal até o momento da cerimônia da bênção das alianças.
Os pajens se aproximam dos noivos e do padre, com uma salva de prata, na qual deveriam estar as alianças no meio de pétalas de rosas. Surpresa e decepção: não havia aliança nenhuma!
Estávamos, eu e Aparecida, ao lado dos noivos. O padre teve a presença de espírito de nos pedir emprestadas as nossas próprias alianças. Abençoa-as e as entrega aos noivos, dando continuidade à cerimônia. Só no final do casamento, elas nos foram devolvidas. Pela quarta vez, são abençoadas.

5a. Bênção – 1998 -Penta – Bodas de Ouro
As Bodas de Ouro, como convinha, foram celebradas com as maiores pompas na mesma matriz, superlotada. Filhos, noras e netos demonstrando alegria pelo crescimento da família Costa. O novo vigário, Padre Efraim Solano Lopes, toma em suas mãos as velhas alianças.
Com emoção, presenciamos a 5ª bênção. Feliz, posso dizer:
- Temos alianças penta-campeãs... de bênção! Até 2005, sem dúvida, é recorde mundial!

6a. Bênção – 2008 - Hexa – Bodas de Diamante

Dia 5 de junho, na semana passada, Aparecida e eu completamos os 60 anos de vida em comum.
Parece que foi ontem, ali mesmo sob o altar-mor da Matriz de São José. Recebemos as bênçãos sacramentais pelas mãos do Padre Antônio Mendes, os padrinhos e parentes ali ao lado, a igreja repleta...
Agora, a festa está sendo preparada para domingo, dia 15 de junho: outra Missa, mais bênção e um almoço comemorativo. Filhos, netos, sobrinhos, amigos daqui da cidade e de fora, convidamos e aguardamos todos.
Nada de muito luxo, nada de ostentação, mas esbanjaremos alegria e contentamento com a presença de cada um.
Eis o nosso patrimônio: o respeito, a admiração, a alegria de termos uma família unida e amigos constantes.
Por isso, posso dizer com orgulho: nosso casamento é hexacampeão.
E que venham outros campeonatos!!!
Aguardamos vocês!