sábado, 8 de agosto de 2009

Pega ladrão!

Reconto uma das minhas histórias:

Nos idos de 1940, quando eu tinha entre 15 e 18 anos, aconteceu comigo um fato interessante, foi o seguinte:

Meu pai, Sô Ilidinho, transferiu para o meu nome sua selaria (fábrica de arreios de montaria).

Como proprietário, a responsabilidade aumentou bastante: o atendimento aos vendedores de produtos básicos, atendimento aos fregueses, pagamentos, etc., tudo isso era comigo.

Observem: Tão novo e já era empresário.

Os atacadistas de Belo Horizonte, São Paulo, Curvelo e Rio Grande do Sul continuaram a fornecer mercadorias para a minha empresa, com o aval de papai.

Quando faltava algum material, havia necessidade de minha ida a BH. Eu estava sempre bem trajado, de gravata, paletó e chapéu. Viajava pela Maria Fumaça da Central do Brasil, chegando à capital mineira somente à noite.

Certa vez, para aproveitar oportunidades, viajei em um sábado, pois no domingo pretendia assistir a uma partida de futebol entre o Clube Atlético Mineiro e o Palestra Itália, hoje Cruzeiro Esporte Clube.

No domingo, não me lembro se no campo do Atlético ou no Barro Preto, campo do Cruzeiro, eu estava presente entre os torcedores, fazendo força para a vitória do meu clube favorito, o glorioso Cruzeiro.

No decorrer da partida, notei que Kafunga Murilo e Ramos, do Atlético, estavam impecáveis, salvando o seu time de um resultado negativo. Já no Cruzeiro, os destaques ficavam por conta de Geraldo II, Caieira e Bibi, um trio inesquecível.

O futebol apresentado pelas duas equipes foi equilibrado, muito vibrante, emocionante desde o início até o final, muito bem dirigido pelo competente árbitro Mario Viana, de saudosa memória.

O resultado não poderia ser outro: deu empate.

Estou desviando de assunto, volto ao principal.

No dia seguinte, segunda-feira, fui às compras nas casas especializadas no ramo de couro e outros apetrechos para selaria. Nessa mesma tarde fui à estação ferroviária comprar passagem para, no dia seguinte, viajar de volta para São José da Lagoa, hoje Nova Era.

Com a passagem no bolso, passei pela pensão Sete de Setembro, no bairro Floresta, onde paguei as despesas, pois viajaria no dia seguinte, bem cedo. Entrei no meu quarto, preparei a bagagem e, logo após, saí a caminhar aleatoriamente pela cidade.

Depois do viaduto da Floresta, chegando à Rua da Bahia, à esquerda de quem sobe, havia um Verdurão, com uma banca com bananas no passeio. Aproximei-me para comprar algumas pencas com intuito de levar para casa. Antes de pegar as bananas, não resisti à vontade de comer e retirei uma, quando então ouvi gritos assim:

- Olha o ladrão! Pega o ladrão!

Duas pessoas correram em minha direção. Pensei que algum ladrão queria me roubar, deixei a banana cair e corri para o outro lado da rua, entrando no Parque Municipal (na época, não havia o gradil). De dentro do parque, olhei para trás, mas o trânsito impediu que o ladrão me alcançasse. Novamente ouvi a mesma voz gritando:

- Cerquem do outro lado que eu vou por aqui!

Pensei comigo:

- Estou roubado! O ladrão vai me deixar nu!

Sem outra saída, subi em uma árvore, escondendo-me entre seus galhos.

Lá de cima pude ver e ouvir os dois supostos ladrões passarem bem próximo:

- É, ele sumiu.

Fiquei na árvore até escurecer, quando começou a chover. Molhei-me todo, abraçado ao tronco para não cair.

Acreditem que a noite chegou e a danada da chuva não parava.

Empoleirado lá em cima, contando as horas pelo som do relógio da Igreja São José, ali fiquei até a madrugada, já sem chuva.

Desci do meu “poleiro”. Estava ensopado e sujo daquele lodo que escorria pelo tronco da árvore. Caminhei até à Av. Afonso Pena, nas proximidades da Igreja São José, onde pegaria um táxi para pensão 7 de Setembro. Mas... todo o meu dinheiro havia sumido!!!

Conforme relatei no princípio, os rapazes de Nova Era usavam paletó e chapéu. Voltou a chover abundantemente. Procurei um cantinho debaixo de uma marquise, fiquei bem encostado na parede por muito tempo. Pensava:

- Será que aqueles dois não eram ladrões e, sim, funcionários do comerciante de frutas? Será que eles julgaram que eu queria furtar bananas? Será que eles achavam que eu queria tirar frutas e não pagar?

Cansei de ficar em pé. Sentei-me no chão e em poucos minutos estava dormindo. A minha cabeça pendeu para baixo, o chapéu caiu entre minhas pernas, ficando com a parte que se coloca na cabeça virada para cima.

Ao acordar, que surpresa, o chapéu estava cheio de dinheiro. Olhei para os lados, tudo tranqüilo, guardei a dinheirama nos bolsos e paguei um táxi até a pensão.

Foi a conta de tomar um banho e trocar de roupa, antes de rumar para a estação ferroviária no mesmo táxi, que ficou esperando.

Cheguei bem em cima da hora para o retorno a São José da Lagoa. Já em casa, são e salvo, tranqüilo, encontrei junto às notas o dinheiro que julgava ter perdido.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

A Banda dos Farrapos de Nova Era-MG

Há 26 anos, a Banda dos Farrapos alegra o sábado e a segunda-feira de Carnaval, aqui em Nova Era.

Os critérios para "tocar" na bandinha são vários, mas o principal é não saber tocar uma nota musical sequer!

Lá pelas duas da tarde, o sol rachando sobre as calçadas centenárias de Nova Era, esta é a hora em que os marmanjos colocam seus melhores piores ternos, as gravatas mais enjambradas, as botinas mais estropiadas e se ajuntam em forma unida, cada qual com o pior instrumento musical que encontraram. Põem-se a tocar - se é que se pode chamar de música aquela algaravia de sons, tão desencontrados quanto o estrondo de dois caminhões carregados de ferro-velho a chocoalhar ladeira abaixo. Percorrem as estreitas ruas, suando em bicas. Mas não faz mal, reidratam-se de quando em vez nos botecos do caminho e reabastecem-se de energia orgânica, vinda dos canaviais, é claro!

Repito o que disse outrora:
"Vale a pena ver e ouvir a Bandinha dos Farrapos: o Maestro não é obedecido, haja vista que a Bandinha dos Farrapos é a “única” em todo o planeta que marcha para trás, isto mesmo, marcha à ré, em sentido contrário aos passos do Maestro que mandou seguir à frente.
Vejam: eu sou mais privilegiado que a maioria da população pois a Bandinha, ao chegar em frente a minha residência, pára em minha homenagem e executa algumas melodias e evoluções .
Todos os anos, o Maestro, em nome da corporação, me oferece uma camisa que, ato contínuo, passo a usar. É claro que, em retribuição – sempre bem recebida pelos músicos – ofereço para todos aquele líquido geladinho que desce redondo, refrigerantes, salgados, etc. Pois ninguém é de ferro."

Neste ano, a platéia se enriqueceu com a presença ilustre dos netos belorizontinos, todos muito bem acompanhados, conforme enumero: Ana & Thiago, Ângelo & Renata e Leonardo & Júlia, além dos netinhos daqui mesmo, Nélio Henrique e Maria Eduarda (filhos do Nélio e Valdenice) e Luana e Aroldo (filhos do Bonifácio e Cida). Vieram a Sheila, o Cláudio & Amélia, Clóvis & Consolação, Ilídio & Nanci, a cunhada Zizina.

Enriqueceu-se também a banda, pois um novo músico integrou-se à corporação musical dos esfarrapados: meu filho caçula, o Bonifácio, que garbosamente tropeçou no ritmo sincopado de marchas carnavalescas nunca antes executadas na história deste país e fez juz à alegria que impera no carnaval novaerense.

Aos incrédulos que só acreditam no que vêem, taí uma amostra deste que vos fala, regendo com orgulho a famosa Banda dos Farrapos. (Vídeo captado por meu filho Cláudio):

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Conselhos

Dona Leopoldina era uma senhora de seus 93 anos, elegante, bem vestida e penteada. Estava de mudança para uma casa de repouso, pois o marido com quem vivera 70 anos havia falecido e ela ficara só.

Depois de esperar pacientemente por duas horas na sala de visitas, ela deu um lindo sorriso quando a atendente veio lhe dizer que seu quarto estava pronto.

A caminho de sua nova morada, a atendente ia descrevendo o minúsculo quartinho, inclusive as cortinas de chita florida, que enfeitavam a janela.
- Ah, eu adoro essas cortinas - disse ela com entusiasmo de uma garotinha que acabou de ganhar um filhote de cachorrinho.
- Mas a senhora ainda nem viu seu quarto...
- Nem preciso ver – respondeu a velhinha. Felicidade é algo que você decide por principio. E eu já decidi que vou adorar! È uma decisão que tomo todos os dias quando acordo.
- ?
Sabe? Eu tenho duas escolhas: Posso passar o dia inteiro na cama contando as dificuldades que tenho em certas partes do corpo que não funcionam bem ou posso levantar da cama agradecendo pelas outras partes que ainda me obedecem.
Cada dia é um presente.
Enquanto meus olhos abrirem, vou focalizá-los no novo dia e também nas boas lembranças que eu guardei para essa época da vida.

A velhice é como uma conta bancária: Você só retira daquilo que você guardou.
Portanto lhe aconselho a depositar um monte de alegria e felicidade na sua Conta de Lembranças.

Nota: de minha parte já estou depositando em conta há muito tempo.
Aquele abraço.
Ismael

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Caboquim sabidim

O caboquim cordô cêdo,
ispriguíçô,
lavô as mão na gamela,
limpô uzói,
sinxugô,
tomô café,
pegô a inxada,
sivirô pra muié
I falô:
- Muiééé,
tô inoprotrabaio.

Quano q'êle saiu da casa,

ao invêiz dií prá roça,
ele subiu num pé di manga
I ficô iscundidim.

Ele jatava disconfiado.

De repente
pareceu um negão,
e foi inté upé di manga
I nem si percebeu
q'o caboquim tava lá inrriba.
Pegô u'a manga...

chupô,
pegôta,
I mais ôta...,
I a muié du caboquim chegô
na janela e gritô:
- Póvim,

ele já foi!
I o negão largô as manga
I sinfurnô dendacasa du caboquim.
O caboquim, danado de ráiva,

desceu da árvre,
pegô um facão
e intrô na casa.
Quandele abriu a porta

ele viu o negão chupano
as teta da muié,
intonsi levantô u facão e falô:
- Vai morrêêêêê negão!!!

E num é cunegão

puxô um 38 da cintura,
I pontô pro caboquim falano:
- Por que eu vou morrer?
E o cabuquim:

- Uai cê chupô trêis manga
e agora tá mamando leite.
Assim tu vai morrê,

manga cum leite faiz mar, uai!!!

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Ontem-Hoje: de Nova Era para o Mundo!


Estou super-orgulhoso com a reportagem de hoje no Caderno de Informática da Folha de São Paulo. O motivo? Conto aqui:

Outro dia recebi uma ligação da repórter e blogueira Daniela Arrais, da Folha de São Paulo, pedindo-me uma entrevista para a reportagem que estava fazendo, acerca do uso da internet por idosos. Quem lhe deu o link do meu blog foi o Inagaki. A Daniela mandou email pro meu filho Cláudio que lhe repassou meu telefone.

Pois então. Fez-me, por email, algumas perguntas, respondi e quem quiser pode ler no link da Folha, conforme abaixo:O link vale só para assinantes. Quem não é assinante pode ler a entrevista direto na fonte, ou seja, aqui mesmo:


1ª - Quando o senhor começou a usar a Internet?
Resp. Comecei a usar Internet no ano de 2.000, época em que meu filho Ismael José que residia em Timóteo-MG, me deu de presente um computador.


2ª - Qual foi a maior supresa que teve?
Resp. A maior surpresa foi constatar que a comunicação via Internet é muito rápida, não podendo ser comparada com os Telégrafos dos Correios, onde eu, durante longos anos, 1.958 a 1.979, exercia a profissão de telegrafista, usando o Código Morse.


3ª - E a maior dificuldade?
Resp. Sei que as dificuldades foram muitas, inclusive identificar e clicar nos ícones corretos, agilidade nas digitações e adaptação à nova tecnologia. Entretanto todos os meus 9 filhos, Cláudio, Clóvis, Cléver, Ismael José, Sheila Maria, Jaques, Ilídio, Nélio e Bonifácio, e ainda o indispensável apoio de minha esposa Aparecida, me ajudaram muito a superá-las.


4ª - O que costumava fazer na Internet?
Resp. Ainda gosto, e muito, de trocar email's com meus filhos, meus netos, amigos e conversar através de MSN e Orkut. Faço navegação na Internet , inclusive pesquisas no Google e sites de notícias. Fiquei e estou muito entusiasmado com o meu Blog Ontem-Hoje no qual venho mantendo a qualidade e atualizado desde 2.004.

5ª - O que você acha que o uso da internet mudou na sua vida? O senhor se sente mais "ligado", com mais assunto com seus netos, por exemplo?
Resp. Tive um ganho excepcional na forma de escrever, aprimoramento na leitura e gramática, desenvolvimento na literatura e estilo. Realmente, a internet me deixou mais ligado com meus 9 filhos, meus netos e amigos.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

De arma em punho

Certa ocasião, eu disse aqui, neste cantinho, que minha primeira profissão foi a de ”seleiro”, o que confirmo. Fabricava selas para montaria e outros artefatos de couro.

Fui, ainda, jogador de futebol, sempre no time principal: nunca joguei no cascudo, acho até que eu era bom de bola. (Aqui entre nós: a bola era minha! Outra coisa: fui um dos fundadores do time do Minas Esporte Clube, de Nova Era!).

Minha carreira rumo à seleção do Brasil foi interrompida por uma contusão não muito grave. Tive de me afastar do gramado como jogador, mas a saudade me fez voltar ao campo, dessa vez como juiz de futebol. Modéstia à parte, eu apitava muito bem!

Sempre havia uma partida para apitar, aqui em Nova Era ou em alguma cidade vizinha, como João Monlevade, São Domingos do Prata, Itabira, etc.

Certo domingo, solicitaram-me que apitasse o maior clássico de nossa cidade, entre os dois rivais: Comercial F.C. x Minas E. C., no campo do Comercial. A cidade se dividia entre os alvinegros comercialinos e os vermelhos, do Minas. Era, realmente, um clássico que mobilizava toda a população. O jogo seria no campo do Comercial. Consideravam-me, mesmo, um ótimo árbitro, pois todos sabiam que eu jogara no Minas, tendo sido um de seus fundadores. Entretanto, confiaram na minha imparcialidade.

Já estávamos no segundo tempo. Tudo ia bem, apesar do calor da disputa. “Meu time”, ou melhor, o time do Minas, perdia de 3 a 2, quando, aos 35 minutos, tive de assinalar uma penalidade máxima contra o Comercial. É claro que os jogadores do time da casa correram em minha direção, protestando contra a marcação, gesticulando e segurando a bola. E eu, ali, no meio, firme...

Foi quando o goleiro Dedé, do Comercial, colocou-se de braços abertos à frente de seus colegas, gritando:

- Foi pênalti, sim! Eu entrei no Zé Neves para quebrar mesmo! Deixem cobrar que eu garanto: vou fazer a maior defesa!

Diante da confissão do próprio colega, não houve mais protestos.

O pênalti é batido, o jogo empatado. Mais uns 10 minutos e a partida é encerrada sem outros incidentes.

Naquela época, já era noivo da Aparecida, cuja residência ficava muito próxima do estádio Israel Pinheiro, do Comercial.

À noite daquele mesmo domingo, no trajeto para sua casa, escutei vozes vindo de um canto escuro – estávamos em 1947, a luz elétrica era de péssima qualidade – até que vislumbrei uns quatro rapazes que começaram a cantar:

- “Rato, rato, rato,

por que motivo tu roeste meu baú?

Rato, rato, rato...”

Senti que era um insulto e uma provocação. Mas segui caminho.

Pois a cena se repetiu nas noites seguintes: era eu passar e a cantoria principiava:

- “Rato, rato, rato,

por que motivo tu roeste meu baú?

Rato, rato, rato...”

Voltemos à selaria, onde exercia meu ofício:

Além de arreios para montaria em animais, eu fabricava outros artigos de couro, para pronta entrega e encomendas.

Fabricava coldres (capa) para canivetes, facas, revólveres, inclusive rifles, de alguns caçadores.

Pois bem: certo dia, o meu amigo e freguês, Sebastião José Pinheiro, levou-me um revólver muito bonito, de cabo de marfim com pontinhos dourados do tamanho de uma cabeça de alfinete, para fazer uma capa, ou coldre. Antes de me entregá-lo, como medida de segurança, o Sebastião retirou as balas do tambor e as colocou em seu bolso, sem conferir. Após escolher a cor do couro, resolveu demonstrar como funcionava bem o gatilho e o cão de sua arma, tudo muito bem sincronizado - nós dois, um de frente para o outro. O Sebastião pressiona o gatilho apontando a arma em minha direção. O tambor começa a girar, o cão vai subindo, subindo... de repente, o amigo murmurou:

- Meu Deus! quase o matei, Soié. Tem uma bala no tambor!

Depositou cuidadosamente o revolver sobre a mesa, e desmontou, como que desmaiado, na cadeira que lhe ofereci.

Uma colher de água em sua boca e uma vigorosa massagem em seu pulso o reanimaram quase imediatamente.

Escolheu o couro, acertamos o preço e lhe confirmei que poderia procurar a encomenda logo mais, no fim do dia.

Lá pelas 17 horas, fui ao armarinho do David M. Guerra, grande admirador e colecionador de armas de fogo, a fim de lhe mostrar o lindo revólver. Ao entrar em seu estabelecimento, percebi, junto ao balcão, um dos “seresteiros” das últimas noites. Com calma, desfiz o embrulho, exibindo ao David a obra prima. O rapaz, lá, espiando com o rabo dos olhos. Depois de bem examinada, o David perguntou:

- Esta arma é sua? Você quer vender, Soié?

Em voz alta, respondi:

- É minha, sim, mas não está à venda.

E acrescentei:

- A partir de hoje, estarei sempre com ela na cintura, pois tem gente que está me insultando quando vou à casa da Aparecida. Qualquer hora dessas, vou disparar tiros em direção aos safados, escondidos que ficam no meio da escuridão! Até amanhã, David.

Virei-me para o moço que espiava junto ao balcão e repeti:

- Até amanhã, meu caro.

Nessa mesma tarde, entreguei o revólver e seu coldre ao Sebastião.

Continuei a visitar minha noiva, como fazia todas as noites. Já não era molestado por ninguém, muito menos pelos jovens “seresteiros”. Até hoje!


Agora, se querem saber: Nunca, jamais, em tempo algum, andei armado!...

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

CARMA, MOÇO!

Domingo à tarde, lá ia Seu Ponciano, fazendeiro das bandas de Valadares, dono de um dos maiores e melhores alambiques da região.
Lá ia ele com seu caminhãozinho 1951, bem estragado, quase sem freio, levando sua cachaça para as vendas do arraial.
Saiu da estradinha de sua fazenda, entrou na BR-116 sem poder parar, justamente quando passava uma BMW-2007.
Seu Ponciano bate de cheio na traseira daquela maravilha.
O paulista, doutor Evandro, dono da BMW, sai que é uma fera pra cima do Seu Ponciano.
- Carma moço, muita carma, fica brabo à toa, não, Sô! Já, já vamo arresorvê tudim, tudim...
- Resolve nada seu *&¨%$#!)(*+#$%, esta coisa aí não paga nem os pneus da minha máquina!!!
- Carma... já dissi qui a gente resorve tudim, tudim! Sô dono de alambique ali nos arredores de Valadares, Sô! Aqui, Sô Dotô, toma uma aqui da minha fazenda... é da boa... toma qui o sinhô vai si acarmá...
O Dr. Evandro acaba aceitando e toma uma.
Gosta.
- Acarmô?
- Acalmei nada!!!
- Intão bebe ôtra qui vai carmá... Teim aqui tomém um tira-gosto qui a patroa aperparô, uma paçoca de carne socada no pilão.
E assim foi.
Depois de uma meia dúzia de doses, o Ponciano torna a perguntar:
- Agora, Dotô, já carmô?
- Sim, agora sim! Vamos resolver esta questão!
- Isso! Dotô! Intão agora nóis vamu sentá aqui i chamá a puliça pra fazê o tar di bafômetro i vê quem tá errado!